De onde vêm os embriões aneuploides?

12 jan, 2026

De onde vêm os embriões aneuploides?

A aneuploidia é definida como a presença de um número de cromossomos diferente do normal (46 XX ou 46 XY), como encontrado em monossomias ou trissomias. Além disso, também são importantes no Diagnóstico Genético Pré-Implantacional (PGT) as alterações cromossômicas estruturais, como duplicações, inversões e translocações. Defeitos na correta separação dos cromossomos podem ocorrer nos gametas durante a meiose ou em divisões mitóticas pós-zigóticas. Embriões com alterações numéricas ou estruturais são uma das principais causas de falha de implantação pós-fertilização, aborto espontâneo e mau prognóstico em tratamentos de fertilização in vitro (FIV) ou no desenvolvimento embrionário natural.

Origem materna
Diversos estudos demonstram que a taxa de aneuploidia embrionária varia de 30% a 60%. Nestes embriões, em aproximadamente 90% dos casos, as aneuploidias são de origem materna. Até os 35 anos, a incidência de embriões aneuploides gira em torno de 20%, e a maioria dos erros ocorre durante a meiose I (MI). Após essa idade, os erros são mais frequentes na meiose II (MII), e as taxas de aneuploidia sobem para 92% após os 42 anos. Oitenta por cento das trissomias são de origem materna, derivadas da não disjunção cromossômica, e os cromossomos mais comumente afetados são: 13, 15, 16, 20, 21 e 22. Já as monossomias ocorrem principalmente nos cromossomos 13, 16, 18 e 22; e em 50% dos casos são de origem materna. É importante salientar que, na maioria dos casos, embriões monossômicos apresentam atraso, parada de desenvolvimento ou degeneração (não sendo elegíveis para transferência ou biópsia embrionária), e os poucos embriões que implantam evoluem para abortamento — com exceção da monossomia do X (síndrome de Turner), que é compatível com a vida.

Origem paterna
Em cerca de 8% dos embriões, as aneuploidias são de origem paterna e, embora menos frequentes, possuem particularidades importantes. Elas podem ocorrer durante as meioses I e II ou após a fecundação, principalmente por erros derivados da fragmentação do DNA espermático. O espermatozoide parece ter uma predisposição para a trissomia do cromossomo 1; quando este é afetado, na maioria dos casos, a origem é paterna. Outra peculiaridade diz respeito às monossomias, nas quais o homem contribui em 50% dos casos, sendo a monossomia X a mais frequente derivada dos espermatozoides. De fato, em até 80% dos casos de síndrome de Turner, a origem da aneuploidia é paterna. O gameta masculino também é responsável pela maioria das alterações estruturais — em até 70% dos casos —, e as alterações mais frequentes ocorrem nos braços longos dos cromossomos 15, 17 e 22.

Origem embrionária
As aneuploidias de origem embrionária são raras, ocorrendo em 2% a 5% dos casos, e são derivadas de erros durante as divisões mitóticas do embrião. Não seguem padrões cromossômicos preferenciais. Os mosaicismos e as aneuploidias caóticas são, na maior parte dos casos, derivados exclusivamente do embrião.

Considerações finais
A predominância da origem materna significa que muitos dos riscos associados à aneuploidia têm a ver com a qualidade do oócito, a idade materna e os mecanismos de meiose feminina. Por outro lado, a contribuição paterna, embora menor em termos numéricos, não pode ser negligenciada, especialmente no âmbito das alterações estruturais e dos cromossomos sexuais, ou em contextos de fertilização assistida, onde o dano ao DNA espermático ou fatores paternos possam estar presentes.
Para a prática de PGT ou triagem de embriões, a determinação da origem parental pode ajudar a orientar o aconselhamento genético e direcionar o tratamento dos pacientes.

A tabela abaixo sumariza as informações apresentadas no texto.

Autor: Josimar Grassi Pereira
Bacharel em Biologia;
Especialista em Reprodução Assistida;
Mestre em Ciências da Saúde;
Diretor de laboratório da Clínica Gaia Centro Reprodução Assistida;
Delegado Regional do Pronúcleo para Santa Catarina;
Membro do comitê de ética do Pronúcleo;
Membro do comitê científico da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana SBRH;
Instagram: @josimargrassi

 

Referências
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