Congelar embrião é melhor do que óvulo?
07 abr, 2026
A decisão entre congelar óvulos ou embriões é uma etapa importante no planejamento reprodutivo e no tratamento de fertilização humana assistida. Quando um casal ou uma mulher opta por preservar a fertilidade, surge uma dúvida frequente: é melhor congelar óvulos ou embriões?
Em ambos os casos, o primeiro passo é a estimulação ovariana controlada, realizada por meio de medicações hormonais que estimulam os ovários a produzirem múltiplos oócitos em um único ciclo. Esse processo é monitorado por ultrassonografias seriadas e, quando os folículos atingem o tamanho adequado, é realizada a aspiração folicular para a coleta dos óvulos.
A partir desse momento, define-se a conduta a ser adotada: a criopreservação dos óvulos ou a fertilização in vitro seguida do congelamento dos embriões. Essa escolha deve considerar os objetivos reprodutivos, as condições clínicas e os aspectos éticos e pessoais de cada paciente.
A criopreservação de óvulos é uma alternativa indicada principalmente para mulheres que desejam:
- Adiar a maternidade por motivos pessoais ou profissionais;
- Preservar a fertilidade diante de baixa reserva ovariana ou com risco de menopausa precoce;
- Realizar acúmulo de oócitos;
- Preservar a fertilidade antes de tratamentos oncológicos ou de endometriose severa.
O principal benefício do congelamento de óvulos é a autonomia reprodutiva feminina, permitindo que a mulher decida o momento da gestação e com qual material genético masculino será fertilizado. Além disso, os oócitos preservam a idade biológica no momento da coleta, o que pode aumentar as chances de sucesso futuro quando comparado a tentativas realizadas em idades mais avançadas.
Do ponto de vista biológico o óvulo é uma célula única, de grande volume citoplasmático e altamente sensível a alterações osmóticas e térmicas, existe perda celular e funcional durante o aquecimento e a fertilização subsequente. Já o embrião passou pelo processo de fertilização e ativação do genoma embrionário antes, o que contribui para maior estabilidade estrutural e funcional durante a criopreservação, demonstrando maior resistência ao estresse causado pelos processos de congelamento e descongelamento.
As taxas de sobrevivência pós-vitrificação são elevadas para ambos os métodos. Estudos recentes mostram que a sobrevivência de oócitos vitrificados varia, em média, entre ~78% e 90%, podendo ultrapassar 90% em centros com protocolos altamente padronizados. Em contrapartida, a sobrevivência de embriões vitrificados, principalmente blastocistos, é consistentemente mais alta, frequentemente situada entre ~95% e 99%, com estabilidade superior após o aquecimento.
Já a criopreservação de embriões apresenta vantagens biológicas e clínicas importantes. O embrião já passou pelas etapas críticas da fertilização, clivagem celular e formação de blastocisto, dessa forma, ocorre um “funil biológico”, no qual apenas os embriões com maior potencial de desenvolvimento são criopreservados, oferecendo uma estimativa mais realista das chances reprodutivas. Além de permitir a realização de testes genéticos pré-implantacionais (PGT) antes da transferência.
Uma das desvantagens do congelamento de embriões é que, em casos de divórcio, o processo de descarte pode ser complexo e burocrático, envolvendo diversas questões contratuais e legais, além da perda definitiva do material genético.
Assim, embora ambas as estratégias sejam eficazes e seguras, o congelamento de embriões tende a oferecer maior eficiência biológica, maior previsibilidade clínica e melhores resultados cumulativos, especialmente quando o objetivo é maximizar as chances de gravidez e nascimento vivo por ciclo iniciado. Por outro lado, o congelamento de óvulos permanece como uma ferramenta essencial para garantir autonomia e liberdade reprodutiva às mulheres.
Fontes:
Referências
- Argyle CE, Harper JC, Davies MC. Cryopreservation of embryos and oocytes in human assisted reproduction. Human Reproduction Update. 2016;22(4):442–465.
- Doyle JO, Richter KS, Lim J, et al. A comparison of live birth rates and perinatal outcomes between cryopreserved oocytes and cryopreserved embryos. Journal of Assisted Reproduction and Genetics. 2016;33:1487–1494.
- ASRM Practice Committee. Evidence-based outcomes after oocyte cryopreservation for donor oocyte IVF and planned oocyte cryopreservation: a guideline. Fertility and Sterility. 2021.
- Groenewoud ER, et al. Outcomes of female fertility preservation with cryopreservation of oocytes or embryos in the Netherlands: a population-based study. Human Reproduction. 2024;39(12):2693–2704.
- Lambertini M, et al. Live birth rate after female fertility preservation for cancer. Human Reproduction. 2023;38(3):489–501.
Bruna Ferreira Rech
Embriologista Sênior – Clínica Embrion