Tabagismo e fertilidade masculina: Por que parar de fumar é a solução para a melhora do sêmen.

01 dez, 2025

Dados da OMS apontam que no mundo, 1 a cada 5 adultos consomem tabaco. Comparado ao ano 2000, esse número vem diminuindo (25%) em 150 países monitorados. O objetivo é que a redução atinja 30% até o final do ano de 2025. No Brasil, essa taxa já foi superada, conseguimos reduzir pra 35%, ou seja, menos de 10% dos adultos (com 18 anos ou mais), são fumantes – dados coletados entre 2010 e 2021. (4,5,6)

A infertilidade afeta uma parcela significativa dos casais em idade reprodutiva, sendo o fator masculino, de forma isolada, responsável por cerca de 30% dos casos. Enquanto a discussão da qualidade do sêmen se torna cada vez mais necessária devido ao declínio global na concentração de espermatozoides, o tabagismo se estabelece como um dos principais fatores de infertilidade  modificáveis da saúde reprodutiva masculina. (3)

Entre os diversos componentes presentes da fumaça do cigarro, a nicotina é a substância diretamente associada ao aumento da fragmentação do DNA espermático (FDE). Após a aspiração pulmonar, a nicotina e a cotinina, alcançam o fluido seminal e exercem efeitos deletérios sobre as células germinativas. Esses compostos aumentam a produção de espécies reativas de oxigênio (EROs) comprometendo assim a integridade mitocondrial, causando estresse oxidativo e lesões no material genético dos espermatozoides. Estudos recentes apontam uma correlação positiva entre os níveis séricos de nicotina e o índice de FDE em homens fumantes. Além da nicotina, outros elementos da fumaça, como cádmio, benzeno e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, aumentam o dano, reforçando o papel diverso do tabagismo na deterioração da qualidade seminal e na redução do potencial fértil masculino.(11,12,13)

A comunidade científica tem demonstrado aumento de interesse no estilo de vida e interações ambientais considerando que eles exercem forte influencia na fertilidade masculina. Este aumento de atenção foi impulsionado pela inclusão da fragmentação do DNA do espermatozóide (FDE) nos guidelines internacionais, reconhecendo-a como um indicador da qualidade funcional do sêmen. O foco reside no fato de que fatores de risco como tabagismo, consumo de álcool, dieta inadequada e poluição ambiental são extremamente comuns, mas também potencialmente reversíveis. Tais hábitos prejudicam não só os parâmetros tradicionais do sêmen, mas também marcadores avançados como a estabilidade epigenética. Os mecanismos por trás desse dano são complexos, envolvendo o desequilíbrio do eixo hormonal reprodutivo, alterações hormonais diretas e a lesão física das células testiculares e germinativas. (1,3)

O SDF elevado não apenas reduz as taxas de fertilização e a capacidade de penetração do espermatozoide, mas também contribui para mutações genéticas, anormalidades cromossômicas, impacto no desenvolvimento dos embriões e um maior risco de aborto espontâneo.

Para o homem que está determinado a melhorar seu potencial fértil, a ciência e a medicina oferecem uma sugestão: a cessação do tabagismo. Este não é apenas um conselho de saúde geral, mas uma intervenção direta no sistema reprodutor masculino. (8,9,10)

As principais referências globais, como a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) e a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), são unânimes em aconselhar fortemente a melhoria do estilo de vida, com foco total na abstinência. O médico atua como um parceiro nesse processo: para pacientes que apresentam sintomas de abstinência intensos ou alto grau de dependência, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo prevê o uso de medicamentos específicos para oferecer o suporte necessário durante a jornada de cessação. (8,9,10)

Além de remover a causa do dano, a conduta médica complementa o tratamento com suporte nutricional. O uso de antioxidantes (como zinco, selênio, Vitamina E e ácido fólico) é um importante aliado na terapia. Esses suplementos ajudam a proteger os espermatozoides  maximizando a chance de recuperação da qualidade seminal. (8,9,10)

No Laboratório de Fertilização In Vitro (FIV), a amostra de sêmen de um paciente fumante é tratada com estratégias de processamento, já que nesse caso, o objetivo principal é ir além da morfologia dos gametas. A amostra passa por protocolos rigorosos com o objetivo de minimizar os efeitos do tabagismo, diminuindo assim a taxa de fragmentação do DNA. Técnicas como o PICSI (que avalia a maturidade funcional através da ligação ao ácido hialurônico) e as placas microfluídicas (que selecionam pela vitalidade e movimento), são utilizadas para isolar os espermatozoides que demonstram o melhor desempenho biológico — ou seja, aqueles que possuem maior maturidade e menor dano genético.

No entanto, é preciso reconhecer a limitação desses dispositivos: essas técnicas, embora essenciais e eficazes em sua funcionalidade, servem como auxiliares de seleção, e jamais substituem a cessação do tabagismo. O sucesso de todo o ciclo de Reprodução Assistida é dependente da qualidade inicial da amostra seminal. Por essa razão, a abstinência permanece a intervenção mais acertiva para maximizar as chances de um resultado positivo na FIV.

Fumar além de impactar os pulmões, também coloca em risco a fertilidade masculina. As substâncias tóxicas do cigarro afetam a qualidade e a produção dos espermatozoides, dificultando a concepção natural e até mesmo os resultados dos tratamentos de fertilização.

A grande esperança reside na capacidade de recuperação do corpo. Três meses sem fumar já é o suficiente para observar a melhora nos parâmetros do sêmen e nas chances de engravidar já que produção de novos espermatozoides leva cerca de 70 a 90 dias. Por isso, parar de fumar é uma das atitudes mais importantes que um homem pode tomar para cuidar da saúde de futuras gerações e da própria fertilidade.

 

ANDREA FROTA

EMBRIOLOGISTA, FERTVIDA, TERESINA-PI