Flicking ou Pulling?

10 fev, 2025

A biópsia embrionária é um procedimento que consiste na retirada de um pequeno número de células do trofectoderma — a camada externa do embrião responsável por formar a placenta — para análise genética, permitindo a identificação de alterações cromossômicas antes da transferência embrionária. Esse procedimento exige técnicas específicas para a remoção das células, como o flicking e o pulling. Ambas as técnicas têm o mesmo objetivo, mas diferem no método de separação das células, o que pode impactar a eficiência, a segurança e a integridade do embrião. A escolha entre elas depende de fatores como a qualidade do embrião, os equipamentos disponíveis e a experiência do embriologista.

No flicking, o embriologista realiza movimentos precisos de “esfregar” as micropipetas para promover o descolamento das células. Após a sucção de uma quantidade específica de células, são aplicados disparos de laser nas interseções entre elas para facilitar a separação. Em seguida, a micropipeta de biópsia é friccionada contra a micropipeta de holding, gerando a força necessária para desprender as células.

Já no pulling, a separação ocorre por estiramento controlado. Após a sucção das células do trofoectoderma e a aplicação de disparos de laser nas interseções, o embriologista utiliza a micropipeta de holding para empurrar o embrião em uma direção e a micropipeta de biópsia para puxar as células na direção oposta, promovendo o descolamento de maneira precisa e controlada.

Figura 1, A: Imagem de um blastocisto sendo biopsiado pela técnica de pulling, B: Imagem de um blastocisto sendo biopsiado pela técnica de flicking.  Ref: Coll, 2022.

Há poucos estudos comparativos entre as técnicas de pulling e flicking, e ainda não há consenso na literatura sobre qual delas é superior. No entanto, evidências sugerem que o número de disparos de laser pode influenciar fatores como o mosaicismo embrionário e a qualidade das células biopsiadas. Por esse motivo, é recomendada a utilização de técnicas que minimizem a manipulação do blastocisto e priorizem movimentos rápidos e precisos, garantindo maior segurança e eficiência nos resultados.

Embora ambas as técnicas sejam amplamente utilizadas, alcançar resultados ideais depende de fatores como a padronização dos procedimentos, a experiência do embriologista e a manipulação cuidadosa do embrião. Protocolos que limitam o número de disparos de laser e adotam uma abordagem menos invasiva têm demonstrado maior eficiência e menor risco de danos ao embrião.

Pode-se concluir que ambas as técnicas são eficazes quando realizadas com competência e cuidado. O mais importante é que o embriologista escolha a abordagem que assegure a segurança do embrião e a viabilidade das células coletadas para análise genética. Afinal, cada embrião é único, e a personalização do procedimento é essencial para alcançar os melhores resultados. Flicking ou pulling? A resposta pode não ser exclusivamente uma ou outra, mas sim o equilíbrio entre técnica e experiência.

 

Rafaela Aguiar, coordenadora da embriologia do CITI Medicina Reprodutiva.

 

Referências:

Coll L, Parriego M, Carrasco B, Rodríguez I, Boada M, Coroleu B, Polyzos NP, Vidal F, Veiga A. The effect of trophectoderm biopsy technique and sample handling on artefactual mosaicism. J Assist Reprod Genet. 2022 Jun;39(6):1333-1340. doi: 10.1007/s10815-022-02453-9. Epub 2022 Mar 16. PMID: 35294709; PMCID: PMC9174396.

Mizobe Y, Kuwatsuru Y, Kuroki Y, Fukumoto Y, Tokudome M, Moewaki H, Watanabe M, Iwakawa T, Takeuchi K. The effects of differences in trophectoderm biopsy techniques and the number of cells collected for biopsy on next-generation sequencing results. Reprod Med Biol. 2022 Apr 20;21(1):e12463. doi: 10.1002/rmb2.12463. PMID: 35475147; PMCID: PMC9020563.

Aoyama N, Kato K. Trophectoderm biopsy for preimplantation genetic test and technical tips: A review. Reprod Med Biol. 2020 Jan 26;19(3):222-231. doi: 10.1002/rmb2.12318. PMID: 32684821; PMCID: PMC7360970.

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