Potencial de implantação embrião com três pronúcleos (3PN)
14 abr, 2025
Potencial de implantação embrião com três pronúcleos (3PN)
A reprodução sexual em humanos é um processo complexo que envolve segregação cromossômica meiótica durante a gametogênese, seguida pela fertilização, onde os (pró)núcleos do ovócito feminino e do esperma masculino se fundem para formar o genoma de um novo indivíduo. A fertilização normal depende da segregação precisa dos genomas parentais durante a meiose, garantindo a formação de um conjunto haploide de cromossomos. Esse processo é essencial para que o embrião em desenvolvimento adquira uma constituição genética diploide biparental adequada, necessária para a função celular normal e a compatibilidade com a vida. No entanto, anormalidades de ploidia, como um pronúcleo (1PN) e três pronúcleos (3PN), são bem documentadas em concepções humanas e podem ocorrer como resultado de erros de fertilização ou erros grosseiros de segregação de conjuntos de cromossomos durante divisões meióticas.
As triploidias e poliploidias são definidas pela presença de três ou mais conjuntos de cromossomos, respectivamente, associadas à presença de mais de dois pronúcleos (2PN) no zigoto quando observadas em pontos de tempo definidos após a fertilização in vitro (16 -18 horas após injeção). A presença de um conjunto extra de cromossomos é, de fato, uma das anormalidades mais comuns encontradas em abortos espontâneos no primeiro trimestre, respondendo por cerca de 10–15% de todas as causas cromossômicas de perdas gestacionais.
A triploidia é ainda classificada em dois tipos: diândrica, na qual o conjunto extra de cromossomos é herdado do pai, e digínica, na qual o conjunto extra é herdado da mãe. Uma gravidez molar é o fenótipo mais comum de concepções triploides diândricas. As concepções digínicas, por outro lado, são geralmente associadas à restrição do crescimento intrauterino e hipoplasia adrenal. De fato, gestações triploides uniformes quase sempre resultam em perda gestacional, com apenas alguns relatos de nascidos vivos de recém-nascidos gravemente comprometidos. A sobrevivência mais avançada de uma concepção triploide já relatada é a de um bebê do sexo masculino (69, XXY) que viveu por dez meses e meio.
A maioria dos zigotos 3PN ou mais são rotineiramente descartados em ciclos de fertilização in vitro (FIV), apesar de representarem até 10% de todos os zigotos. Hoje, novas tecnologias genéticas oferecem a possibilidade de revelar a grande maioria dessas anormalidades de nível de ploidia e, ao mesmo tempo, confirmar a herança biparental normal em embriões 2PN antes da transferência de embriões, fornecendo, portanto, uma abordagem nova e mais detalhada para a utilização clínica de embriões humanos pré-implantação.
A genotipagem precisa através do Teste Genético Pré-implantacional (PGT) oferece a possibilidade de verificação de fertilização molecular integrada em ciclos de FIV, onde a biópsia do estágio de blastocisto já está programada, sem nenhuma implicação para análises extras ou tempos de resposta estendidos. Isso criou uma oportunidade única para mudar a política em FIV em direção à cultura e biópsia de blastocistos derivados de embriões atipicamente pronúcleados, à fim de possivelmente resgatá-los para uso clínico aqueles que mostram uma constituição diploide normal.
No entanto, considerando a taxa de embriões triploides observada tanto por análise estática quanto por time lapse, a probabilidade de obter um resultado diploide nesses casos é extremamente baixa, o que pode não justificar sua testagem rotineira. Esse fator se torna ainda mais relevante em pacientes de idade materna avançada, que podem enfrentar um efeito combinado de aneuploidias e anomalias de ploidia. Até que mais evidências sobre seus desfechos clínicos estejam disponíveis, esses embriões devem ser manejados com cautela e diferenciados de outras categorias de fertilização anormal.
Apesar de promissoras, ainda pode ser prudente para os centros que implementam tais estratégias criar uma política de transferência específica de embriões diploides/euploides derivados de embriões atípicos pronúcleados, incluindo consentimentos específicos e informações dos riscos aos pacientes.
MARIANA DE NADAI
Embriologista Sênior UNIFERT e Sócia UNIFERT Norte
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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