Temas Relevantes em Embriologia no Congresso Brasileiro de Reprodução Assistida (CBRA) 2025

27 out, 2025

Juliana Polisseni
Diretora do Laboratório da Nidus – Juiz de Fora, MG, Brasil
Contato: juliana.polisseni@gmail.com; @julianapolisseni

 

O Congresso Brasileiro de Reprodução Assistida (CBRA) 2025 reuniu especialistas para discutir as tendências e desafios na embriologia, abordando desde as atualizações no Novo Consenso de Istambul até a implementação de práticas laboratoriais sustentáveis e o uso crescente da inteligência artificial (IA) na análise de gametas e embriões. Os principais temas e avanços discutidos no evento que merecem destaque foram:

 Novo Consenso de Istambul: atualizações e desafios

O Novo Consenso de Istambul trouxe modificações importantes na classificação oocitária e embrionária, visando maior consistência entre laboratórios.

Em relação aos oócitos, recomenda-se:

  • excluir do uso clínico aqueles classificados como gigantes;
  • documentar alterações morfológicas associadas ao baixo potencial de desenvolvimento;
  • priorizar oócitos em estágio MII sem vacúolos grandes ou múltiplos, sem SER-a e com corpúsculos polares de tamanho adequado.

A avaliação estática da fertilização deve ocorrer entre 16 e 17 horas após a FIV/ICSI, sendo sugerida a substituição do termo 0PN por “PN não observado” na ausência de pronúcleos visíveis.

Nas clivagens iniciais, o número de células, o grau e a justificativa desse grau devem ser documentados. A fragmentação citoplasmática deve ser classificada como leve (<25%) ou grave (>25%). A presença de multinucleação mantém-se como marcador de prognóstico desfavorável, enquanto a compactação em embriões com mais de oito células é considerada um indicador positivo de viabilidade.

Nos blastocistos, o estágio de expansão deve ser avaliado de 1 a 6, e a massa celular interna (MCI) e o trofectoderma (TE) são classificados de A a D, sendo a letra A atribuída às estruturas com alto número de células compactas e aderidas, e D às estruturas degeneradas ou sem células visíveis.

 

 Controle de qualidade e padronização laboratorial

A qualidade dos resultados em reprodução assistida depende diretamente da padronização dos processos laboratoriais. Durante o congresso, foi enfatizada a necessidade de:

  • formar equipes de embriologistas qualificados, com atualização contínua;
  • elaborar e revisar protocolos operacionais padrão (POPs);
  • definir e monitorar indicadores de desempenho (KPIs).

Essas práticas asseguram maior confiabilidade, rastreabilidade e segurança nos procedimentos, promovendo a consistência dos resultados clínicos entre diferentes centros.

 Avanços em criopreservação: vitrificação ultrarrápida

A vitrificação ultrarrápida foi apresentada como um método promissor para otimização do tempo laboratorial. Embora as taxas de sucesso clínico ainda não demonstrem superioridade em relação às técnicas de vitrificação, o novo protocolo reduz o tempo de exposição dos oócitos e embriões fora da incubadora e minimiza o contato com crioprotetores em temperatura ambiente.

O principal benefício é a eficiência operacional, permitindo maior número de ciclos realizados sem comprometer a taxa de gravidez clínica. Assim, a técnica representa um avanço significativo em termos de produtividade e segurança biológica.

Clínicas sustentáveis e inovação tecnológica

A sustentabilidade foi outro ponto de destaque no CBRA 2025. Foram apresentados projetos de clínicas modulares e sustentáveis, com paredes pré-fabricadas, rápida construção e custos reduzidos, o que pode tornar o tratamento mais acessível.

Práticas sustentáveis incluem o uso de energia solar, equipamentos de baixo consumo energético, sistemas de reuso de água, torneiras com sensores e reciclagem de materiais plásticos. Essas medidas podem gerar redução de até 30% nos custos operacionais, além de minimizar o impacto ambiental.

A inteligência artificial e a automação também estão transformando a embriologia, permitindo avaliações mais objetivas dos gametas e embriões e contribuindo para decisões clínicas mais assertivas.

Avaliação não invasiva de oócitos e embriões

Um dos temas mais inovadores do congresso foi a avaliação não invasiva da qualidade oocitária e embrionária, com base em marcadores bioquímicos e moleculares. Apesar do uso ainda limitado na rotina clínica, a análise da expressão gênica e dos níveis de espécies reativas de oxigênio (ROS) mostra potencial para predizer a competência de desenvolvimento.

As tecnologias de imagem, como o time-lapse, permitem acompanhar a dinâmica da fertilização precoce e as características dos oócitos, agregando informações à seleção embrionária.

Um estudo apresentado avaliou a fragmentação do DNA nas células do cumulus como marcador da qualidade oocitária, podendo auxiliar:

  • na avaliação da resposta aos protocolos de estimulação,
  • na seleção de oócitos para doação,
  • na escolha de embriões para transferência,
  • na análise de casos de falha de implantação.

Os próximos desafios envolvem estabelecer valores de referência para a fragmentação do DNA e comparar os resultados com algoritmos de IA buscando maior acurácia e reprodutibilidade.

Conclusão

O CBRA 2025 reafirmou o papel central da embriologia na reprodução assistida, destacando a importância da padronização, sustentabilidade e inovação tecnológica. O Novo Consenso de Istambul estabelece diretrizes essenciais para a uniformização da avaliação embrionária, enquanto o controle de qualidade e as novas técnicas laboratoriais impulsionam a eficiência e a segurança dos processos.

O futuro da embriologia caminha em direção à avaliação não invasiva e ao uso ampliado da inteligência artificial, promovendo uma abordagem mais precisa e personalizada na seleção de gametas e embriões.

 

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