Quem trabalha em laboratório de reprodução humana já sentiu, nos últimos anos, o quanto a inteligência artificial deixou de ser promessa de congresso para virar rotina. Softwares de time-lapse que classificam embriões por padrões morfocinéticos, algoritmos que apoiam a graduação de blastocistos, sistemas que cruzam dados clínicos para prever chance de implantação: tudo isso já está, de alguma forma, dentro ou perto da nossa bancada. E o próximo passo já bate à porta, o uso de IA para estimar, a partir do genoma do embrião, riscos poligênicos de doenças comuns como diabetes, hipertensão ou depressão, e até para sugerir previsões sobre características como altura ou desempenho cognitivo.
Esse avanço é real, mas a ciência por trás dele ainda é frágil. Em dezembro de 2025, os comitês de Ética e de Prática da ASRM publicaram um relatório conjunto concluindo que o chamado PGT-P (teste genético pré-implantacional para doenças poligênicas) não está pronto para uso clínico e não deveria ser oferecido como serviço reprodutivo no momento atual, dadas as incertezas preditivas dos modelos e as implicações éticas envolvidas. A ESHRE segue linha semelhante, pedindo cautela até que haja evidência robusta de utilidade clínica. Ainda assim, empresas já comercializam esses testes, sobretudo nos Estados Unidos, e a pressão de mercado tende a crescer mais rápido do que a validação científica.
No Brasil, o cenário regulatório também está em movimento, mas ainda não fala diretamente sobre o nosso campo. A Resolução CFM nº 2.454/2026, publicada em fevereiro, passou a normatizar o uso de IA na prática médica de forma geral, reafirmando que a decisão clínica é sempre humana, pessoal e não delegável ao algoritmo, um princípio que vale integralmente para nós, embriologistas, mesmo sem menção explícita à seleção embrionária. Já o marco legal brasileiro de IA (PL 2.338/2023) segue tramitando no Congresso, sem previsão certa de aprovação. Ou seja: temos diretrizes gerais de responsabilidade médica, mas ainda nenhuma norma específica sobre o que fazer ou não fazer quando a IA aponta um “score poligênico” para um embrião.
É nesse vácuo que mora o risco. Sem regulamentação clara, cada clínica, cada profissional, acaba decidindo sozinho até onde vai: se oferece o teste, como comunica um resultado probabilístico e incerto para um casal ansioso, se há espaço para dizer não. Na minha visão, esse “não” precisa continuar sendo possível. Seleção de embrião por traço não médico como cor dos olhos, estatura ou cognição está fora do escopo da medicina reprodutiva, e é isso que instituições sérias como a ASRM têm reafirmado. Nosso papel como embriologistas não é operar a tecnologia calados: é entender os limites estatísticos desses modelos o suficiente para explicar ao médico e ao paciente porque um score poligênico não é um diagnóstico, e para recusar, com fundamento técnico, aquilo que a ciência ainda não sustenta.
A IA vai continuar entrando no laboratório, e isso não é motivo de alarme, historicamente, cada nova tecnologia reprodutiva (ICSI, vitrificação, PGT-A) passou por essa mesma tensão entre entusiasmo e cautela. O que muda agora é a velocidade e o tipo de dado envolvido: não é mais só sobre viabilidade embrionária, é sobre previsão de características de uma pessoa que ainda vai nascer. Por isso as sociedades ligadas a Reprodução Humana Assistida devem ter assento ativo na construção dessas normas, não como reação a escândalos futuros, mas como protagonistas, junto ao CFM e à ANVISA, na definição de o que é uso responsável de IA em seleção embrionária no Brasil. Regulamentação clara não é entrave ao avanço científico, é o que garante que ele siga sendo, de fato, a favor das famílias que atendemos.
Ana Luisa Menezes Campos