O que é
O niPGT-A (non-invasive PGT-A) é uma abordagem desenvolvida com o objetivo de detectar aneuploidias embrionárias por meio da análise do DNA livre de células (cell-free DNA – cfDNA) liberado pelo embrião, dispensando a biópsia do trofectoderma (TE). O cfDNA pode ser obtido de duas fontes: o meio de cultivo gasto (spent culture medium – SCM), caracterizando uma abordagem verdadeiramente não invasiva, e o fluido da blastocele (blastocoel fluid – BF), cuja obtenção requer blastocentese por agulha ou laser, sendo, portanto, considerada minimamente invasiva.
Estudos de validação em larga escala (2020–2026)
O cfDNA embrionário foi descrito pela primeira vez em 2013 por Stigliani et al., utilizando o meio de cultivo, e por Palini et al., a partir do fluido da blastocele, estabelecendo os marcos iniciais para o desenvolvimento da técnica. O maior estudo publicado até o momento analisou 1.301 blastocistos provenientes de oito centros distribuídos em quatro continentes, demonstrando concordância global de 78% entre o cfDNA embrionário e a biópsia de TE, chegando a 84% nos embriões aneuploides quando comparados à massa celular interna (Rubio et al., 2020).
Posteriormente, um estudo de acompanhamento envolvendo 2.539 blastocistos confirmou níveis semelhantes de concordância e observou tendência a menor taxa de abortamento quando os resultados do SCM e da biópsia de TE eram concordantes e euploides, em comparação com casos de TE euploide e SCM aneuploide (Navarro-Sánchez et al., 2026). No entanto, assim como em outros trabalhos, os próprios autores destacam que esses achados sustentam o uso do niPGT-A como ferramenta de priorização da transferência embrionária, e não como substituto da biópsia convencional.
Apesar dos avanços, a concordância entre SCM e TE permanece variável entre diferentes centros e protocolos, oscilando entre 68% e 90%. Em um estudo multicêntrico realizado em sete clínicas japonesas, Iwasa et al. (2025) encontraram concordância de 77,4%. Wu et al. (2025), utilizando cultivo estendido até o sexto dia, relataram sensibilidade de 91,6%, porém especificidade de apenas 50,7%, evidenciando elevada taxa de falsos positivos. Protocolos mais recentes e otimizados já alcançaram acurácia de 91,3% e valor preditivo positivo de 92,1% (Pan et al., 2025), embora ainda não exista padronização entre laboratórios.
Desfechos em nascidos vivos
As evidências sobre os desfechos reprodutivos ainda são limitadas e provêm, em sua maioria, de estudos retrospectivos e séries com pequeno número de casos.
Yeung et al. (2019) avaliaram transferências de embriões classificados como aneuploides pelo niPGT-A, mas euploides pela biópsia de TE: dos 7 casos, 3 (42%) resultaram em gestação em andamento ou nascido vivo, reforçando a preocupação com resultados falso-positivos e o risco de descarte indevido de embriões viáveis.
Em um estudo retrospectivo envolvendo pacientes com perdas gestacionais recorrentes ou falhas repetidas de implantação, Xi et al. (2022) relataram melhora dos desfechos clínicos em comparação com a FIV convencional. Já Wu et al. (2025) descreveram um achado particularmente relevante: embriões classificados como aneuploides pelo niPGT-A, mas euploides na biópsia de TE, apresentaram taxa de gravidez de 94% e taxa de nascidos vivos de 88% após a transferência, reforçando a possibilidade de resultados falso-positivos e o risco de descarte indevido de embriões viáveis.
Ensaios clínicos randomizados com nascidos vivos como desfecho primário ainda estão em andamento, incluindo o estudo multicêntrico niEVT, além de estudos prospectivos cegos de não seleção em programas de doação de óvulos (NCT07364526). Dessa forma, ainda não há evidências definitivas quanto ao impacto do niPGT-A nos desfechos reprodutivos.
Posicionamento das sociedades científicas
Em 2025, a ISAR, a IFS e a ACE publicaram um posicionamento conjunto após revisar 24 estudos envolvendo aproximadamente 3.000 embriões. O documento recomenda que o niPGT (tanto utilizando SCM quanto BF) não seja empregado na prática clínica nem para ranqueamento ou seleção de embriões para transferência, devido às taxas de erro consideradas inaceitáveis e à ausência de evidências de melhora nos desfechos clínicos.
Da mesma forma, a ESHRE, em seu documento de boas práticas sobre add-ons em reprodução assistida (2023), ressalta que o niPGT-A ainda está em fase de pesquisa e requer mais estudos e validações antes de sua ampla aplicação clínica. Assim, seu uso rotineiro ainda não é recomendado.
O que pode ser considerado, com cautela
O niPGT-A representa uma tecnologia promissora e em constante evolução, com potencial para ampliar as opções de avaliação embrionária no futuro. No momento, entretanto, sua aplicação clínica deve ser interpretada com cautela. De acordo com o posicionamento das sociedades, os resultados do niPGT-A não devem, isoladamente, orientar decisões clínicas, como a priorização ou o ranqueamento de embriões para transferência. Embora alguns estudos tenham explorado essa possibilidade, são necessários mais dados para confirmar sua utilidade clínica nessa finalidade.
Da mesma forma, os resultados do niPGT-A não devem ser utilizados como único critério para o descarte de embriões. A interpretação dos resultados deve sempre considerar as limitações inerentes ao método e ser realizada no contexto clínico do casal, sendo o aconselhamento genético uma ferramenta importante para apoiar a compreensão dos achados e de suas implicações. À medida que novas evidências forem produzidas e a tecnologia continuar sendo validada, espera-se que o papel do niPGT-A na prática clínica seja progressivamente mais bem definido.
Referências (ordem alfabética)
ESHRE Add-ons Working Group (2023). Good practice recommendations on add-ons in reproductive medicine. Hum Reprod 38(11):2062–2104. doi.org/10.1093/humrep/dead184
Hammond, E.R., Shelling, A.N. & Cree, L.M. (2016). Nuclear and mitochondrial DNA in blastocoele fluid and embryo culture medium: evidence and potential clinical use. Hum Reprod 31(8):1653–1661. doi.org/10.1093/humrep/dew132
ISAR, IFS & ACE (2025). Clinical Use of Non-Invasive Preimplantation Genetic Testing – A Joint Position Statement from the Indian Society for Assisted Reproduction, Indian Fertility Society and Academy of Clinical Embryologists. J Hum Reprod Sci 18(4):190–196. doi.org/10.4103/jhrs.jhrs_123_25
Iwasa, T. et al. (2025).Validation of non-invasive preimplantation genetic testing for aneuploidies (niPGT-A) in a Japanese population: experience from seven clinics. J Assist Reprod Genet. doi.org/10.1007/s10815-025-03670-8
Navarro-Sánchez, L. et al. (2026). Can cfDNA in culture medium predict chromosomal constitution of embryos? Final results, 2539 blastocysts. Genes 17(4):416. doi.org/10.3390/genes17040416
Palini, S. et al. (2013). Genomic DNA in human blastocoele fluid. Reprod Biomed Online 26:603–610. doi.org/10.1016/j.rbmo.2013.02.012
Pan, Y. et al. (2025). Optimizing non-invasive PGT-A: a multi-factorial approach for enhanced accuracy and seamless integration into clinical IVF. Reprod Med Biol. doi.org/10.1002/rmb2.12688
Rubio, C. et al. (2020). Multicenter prospective study of concordance between embryonic cfDNA and trophectoderm biopsies from 1301 blastocysts. Am J Obstet Gynecol 223:751.e1–13. doi.org/10.1016/j.ajog.2020.04.035
Stigliani, S. et al. (2013). Mitochondrial DNA content in embryo culture medium is associated with human embryo fragmentation. Hum Reprod 28:2652–2660. doi.org/10.1093/humrep/det314
Wu, T.F. et al. (2025). Extended blastocyst culture improves DNA yield in niPGT-A but diagnostic specificity remains limited. Sci Rep 15:34906. doi.org/10.1038/s41598-025-18764-7
Xi, H. et al. (2022). Noninvasive chromosome screening for clinical outcomes of RPL/RIF patients. Front Endocrinol 13:896357. doi.org/10.3389/fendo.2022.896357
Yeung, Q.S.Y. et al. (2019). A prospective study of NiPGT-A using NGS on spent culture media. J Assist Reprod Genet 36:1609–1621. doi.org/10.1007/s10815-019-01517-7
Autoria: Taccyanna Mikulski Ali — CRBio 72348/01 | MSc. Aconselhamento Genético e Genômica Humana (USP) | Gerente de Assessoria Científica e Aconselhamento Genético, LATAM — Igenomix Brasil (Vitrolife Group)